O Brasil e suas carnes II

Boi Esfolado – pintura de Rembrandt

Aquilo que está ruim sempre pode piorar. Não devemos nos esquecer disto. O tempo não volta nem mesmo um só segundo em nossas vidas. O que só reforça a frase de William Shakespeare: “Todo passado é prólogo”. O que definimos como linha de conduta, naquilo que estamos fazendo agora está inexoravelmente escrevendo nosso futuro, de uma forma ou de outra.

Em 2017 escrevi neste Blog um texto chamado “O Brasil e suas carnes” que relembrava, coincidentemente, um triste período, entre tantos, da política brasileira, o Golpe de 1964 (que alguns insistem equivocadamente em chamar de revolução). Mas naquele momento em que escrevia o texto e citava este período, a ditadura não era tema central de discussão na política brasileira como o é agora que foi resgatada como bandeira conservadora.

O texto porém não discutia diretamente o Golpe, mas uma manifestação de arte que, naquele período antidemocrático, espalhou pedaços de carne envolvidos em panos em um rio em Belo Horizonte na mostra coletiva Do Corpo à Terra (1970), além de algumas outras trouxas de carne, ossos e sangue espalhadas por algumas ruas da cidade onde o artista morava. Este trabalho do artista português Artur Barrio, que naquele momento vivia no Brasil, tinha um forte apelo político. Sua crítica dura estava endereçada aos militares e sua “assepsia ideológica”, que significava morte em nome da ordem.

Meu texto de 2017 procurava encontrar a relação entre a arte de Barrio e a perpetuação da violência em nosso país, agora não mais pelas mãos da ditadura, mas pela trágica fragilidade das instituições brasileiras que conduzem à corrupção, à desigualdade, às injustiças, à criminalidade, à impunidade. Uma lista de descaminhos que nos levam ao assassinato dos mais fracos, assassinato físico, bem como assassinatos morais, intelectuais, econômicos, sociais, que carregam para uma vala espiritual, sobre uma vala física, milhares de jovens, mulheres, crianças, pobres, os sem oportunidades e sem nomes. Vítimas da perversidade e promiscuidade da relação entre o público e o privado neste Brasil atrasado.

Em 2017 este era o foco do meu texto, relacionar as trouxas de carne, ossos e sangue de Barrio com os milhares de brasileiros assassinados ou abandonados por uma sociedade injusta e perversa.

Mas relendo o texto me lembrei da frase: Aquilo que está ruim sempre pode piorar.

Refletindo agora em 2019, já praticamente chegando em 2020, sobre esta desigualdade corrosiva que estamos alimentando por tanto anos em nossa sociedade sou obrigado a reconhecer a gigantesca resistência deste conservadorismo histórico, cultural, atávico, chamem como quiser, que nos retém e imobiliza. Uma ação deliberada para manter privilégios de uns em detrimento da maioria, a manutenção da desigualdade com resquícios escravocratas, a apologia à intolerância com características inquisitoriais, ou mesmo o suporte à violência oficial com selo tirânico.

Está sendo reconstruído um imenso abismo social no Brasil. E se é verdade que “todo passado é prólogo” temos motivos mais do que suficientes para voltarmos a encontrar, em grandes quantidades, trouxas de carne, ossos e sangue boiando em rios, depositadas nas calçadas ao lado de postes, junto às lixeiras, debaixo dos viadutos, nos becos e áreas mal iluminadas ou mesmo em um baile funk em Paraisópolis, São Paulo, onde a polícia já encontrou 9 Trouxas de carne espalhadas entre a multidão. Artur Barrio verá a realidade ser novamente mais dura do que sua arte.

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