A mediocridade mata

O triunfo da morte de Pieter Bruegel, o Velho

O volume de informações, de textos e de manifestações medíocres que nos cercam nos dias atuais é brutal. Me parece que o volume está inviabilizando e embotando a capacidade de discernimento da maioria.

As pessoas já não conseguem mais separar as mentiras e distorções grosseiras daquilo que mais se aproxima da realidade. Esta avalanche aparentemente sem nexo tem uma função clara: nos colocar a todos em um mesmo pântano de intolerância, ignorância e ódio. Repetindo, esta avalanche de mentiras, distorções e manipulações está, gota a gota, anestesiando e colocando em estado letárgico a sociedade que agora apenas consegue pensar de forma binária entre “amo ou odeio”, “certo ou errado”.

A história política brasileira, que nunca foi brilhante, jamais teve extrema relevância (nem mesmo no continente sul-americano) ou mesmo foi significativa do ponto de vista filosófico, histórico ou ainda foi protagonista nas grandes transformações sociais, atingiu seu patamar mais raso e artificial. Está subjugada por opiniões nascidas naquilo que chamamos de redes sociais, mas que não sabemos ao certo se o que existe por trás são pessoas ou apenas máquinas de propaganda partidária pagas. Os políticos estão asfixiados entre uma extremidade e sua contraditória. Ou você está comigo ou é meu inimigo. Não há espaço para o debate que sempre foi o campo político por excelência, as discussões se resumem a um ping-pong insípto e solipsista.

Todo este cenário trágico nos empurra para um território polarizado e árido, onde nada de bom poderá fecundar porque um lado está obcecado em destruir o outro. Aqui cresce apenas o ódio e a discórdia. Não existe campo fértil para a empatia, para a sinergia, para a comunhão. Portanto estéril e medíocre.

O assustador é reconhecer algumas semelhanças comportamentais entre o que estamos vivendo e um distante período da história humana onde, ainda sem as poderosas nações, os camponeses, artesãos e os exércitos se reuniam no entorno dos senhores feudais. Esta era a Idade Média.

Estamos vivendo, não ainda em seus sinais exteriores, mas o que me parece pior, em nossas entranhas mais profundas, um retorno inexplicável ao seio da Idade Média. Cito algumas linhas retiradas do livro “O outono da Idade Média” de Johan Huizinga onde ele relata: “O sentimento de justiça ainda era três quartos pagão. Consistia em uma sede de vingança…Para o espírito violento, o pecado passa a ser aquilo que o inimigo faz. A ânsia por justiça chegou ao seu ponto máximo impulsionada tanto pela noção bárbara de “olho por olho, dente por dente” como pelo horror religioso ao pecado; ao mesmo tempo, o dever do Estado de punir severamente parecia uma necessidade urgente. No fim da Idade Média, torna-se crônico o sentimento de insegurança, o medo que, a cada crise, exige das autoridades um reinado de terror.”

O que Huizinga relata é a polarização crua entre aqueles que estavam ao lado e defendendo o senhor feudal, o suserano, normalmente seus vassalos, e quem estava contra ele. O poder da autoridade era absoluto, indiscutível, inapelável. Vejamos o que diz “O outono da Idade Média”: “O fim da Idade Média foi a época de ouro da justiça severa e da crueldade judiciária. Ninguém duvidava um instante que o criminoso merecia sua pena; todos ficavam profundamente satisfeitos quando o próprio príncipe ditava uma sentença. Volta e meia, o governo se lançava em campanhas de justiça severa, ora contra ladrões e salteadores, ora contra bruxas e feiticeiros, oras contra a sodomia.”

Ou seja campanhas de difamação eram provocadas para saciar a sede de sangue, a necessidade de vomitar todas as frustrações e misérias sobre algum pobre diabo que sofreria, pelo bem estar geral, na fogueira, no cadafalso ou no palus. As palavras de Huizinga confirmam a ação deliberada da justiça da Idade Média que reproduzimos hoje no Brasil com a espetacularização das operações policiais e a destruição pela mídia daquele que é escolhido como Judas. “O que nos impressiona na crueldade judiciária do fim da Idade Média é menos a perversidade doentia que a alegria animalesca e embrutecida do povo, a atmosfera de quermesse. As pessoas de Mons (cidade belga) compram o líder de um bando de ladrões a bom preço, para ter o prazer de esquartejá-lo”. Traduzindo: estamos abandonando lentamente no Brasil a noção de civilidade e retornando a passos largos para a barbarie, em tese já superada.

Aquilo que já tínhamos andado para a frente, desenvolvendo teses jurídicas, controles sociais para combater o crime, sem incorrer em outros crimes, buscando eliminar o evidente abuso de autoridade, utilizando a filosofia, as ciências, a tecnologia e sobretudo a ética, conquistas civilizatórias que estão sendo perdidas, diluídas em discussões medíocres, em argumentos mentirosos e hipócritas que nos reaproximam dos séculos XIV e XV. Confira a conclusão do historiador: “A Idade Média ignora os sentimentos que tornaram nossa noção de justiça mais tímida e hesitante: a noção de atenuantes, a noção de falibilidade, a responsabilidade social, a ideia de emendar em vez de punir.”

E como se não bastasse todo tipo de radicalização, de mentiras, distorções de fatos e conceitos, depois de tentarem afirmar que o nazismo é uma “invenção” da direita, que educação sexual em escolas é coisa de comunistas, que homosexualidade se cura, agora temos de conviver com teorias que realmente parecem vindas catapultadas diretamente da Idade Média (mesma teoria que em pleno Renascimento quase incinerou Galileu Galilei 1564 — 1642). Falo de teorias como a “terra plana” discutida seriamente por grupos na primeira Convenção Nacional da Terra Plana que aconteceu recentemente em São Paulo.

Não tenho certeza de onde toda essa loucura pode nos levar, mas tenho certeza que se a sociedade (que não se sente representada por ambas as extremidades) não reagir a essa dosagem de mediocridade em forma de ópio, que nos está sendo ministrada diariamente, afundaremos o país em um mar de lama de onde não sairemos tão cedo.

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