Um mundo pobre

O mundo se discute todos os dias, seja na esfera pública ou privada. Nos diálogos, nos monólogos, através de atitudes, utilizando-se da força ou pelo poder do convencimento. É bom que assim seja. É preferível o erro do movimento, à imobilidade do medo.

Porém o pêndulo da nossa fortuna, nos coloca em um momento histórico de radicalização extrema. Não somos mais violentos, absolutamente, do que já fomos em épocas passadas.

Mas estamos mais divididos, de forma superficial e simplista. Rasa é a palavra.

Vivemos hoje como se fosse possível romper a cadeia de nosso Logos, definida por Heidegger a partir de Heráclito, através do massacre completo de um lado por outro. Trata-se de um enorme e inútil desgaste de energia que poderia estar sendo empregado para construir. Até porque é uma tentativa que já nasce morta.

Portanto vivemos momentaneamente em um mundo mais pobre.

Já fomos muito piores em nosso passado do que somos hoje – sobre isso cito dois estudos interessantes para os incrédulos: Um ensaio de Michel Serres chamado “Antes é que era bom!” e uma longa pesquisa de Steven Pinker em um livro chamado “Os anjos bons da nossa natureza“. Os conservadores que me perdoem, mas o passado não foi melhor.

Hoje, me parece, temos dois blocos extremados para tudo. No campo ideológico, no campo religioso, nas teorias econômicas, sociais, históricas, antropológicas e ambientais. Estamos lentamente construindo um mundo – em nossas mentes – onde só existem duas possibilidades para escolha, um mundo (repito) pobre e reduzido.

As forças que tentam dominar este mundo, se impondo como discurso hegemônico, sejam econômicas, políticas, religiosas, etc. estimulam este imenso cabo de guerra entre pessoas comuns, onde a única vencedora é a imobilidade, que opera através do medo e do ódio. O poder estabelecido é o mecenas da intolerância congelante. Seu interesse na divisão é diretamente proporcional a sua ânsia de controle.

Não se trata de esquerda ou direita. Não se trata de ser reacionário ou revolucionário, liberal, neoliberal, conservador, comunista, democrático, trabalhador, empresário, rico ou pobre. Em meio a esta fragmentação de nomenclaturas que favorecem a manipulação de consciências, a corrupção das ideias, a distorção da verdade e a cooptação do voto, é mais do que necessário recuperarmos a lucidez e a razão. Estamos tratando apenas de poder e controle, de um desejo de alguns que buscam o retorno, o retrocesso, o atraso.

Todo extremismo nos leva a uma espécie de absolutismo. Com o que sonham estes poderes? Com novos reis, hierofantes, imperadores, sacerdotes, sheiks, xás, líderes absolutos que detenham o fogo da única verdade, investidos por deus, solitários transmissores da palavra divina, condutores e salvadores da humanidade.

Muito se fala em maioria democrática. Mas com certeza a maioria não está em nenhum dos dois extremos. A grande maioria está se movimentando entre os dois pólos. Porém esta grande maioria está sem discurso, muda, não há articulação em seus movimentos. O som ensurdecedor vindo das duas bordas opostas tem entorpecido essa grande massa majoritária da população, perdida entre compras, pagamento de dívidas e entretenimento. Aqui temos a maioria sedada, bêbada, incapaz, impotente para reagir.

Um exemplo claro desta manipulação sórdida da população está no texto de Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, colunista do jornal The New York Times. Um artigo onde Krugman demonstra a utilização eleitoreira da população do meio oeste americano, pelos republicanos conservadores. O texto demonstra que, mesmo desqualificando esta população, os conservadores conseguem (quando precisam de votos) manter a crença de que são os únicos defensores da região e sua cultura. A narrativa criada por parte da mídia, as crenças arraigadas, o marketing da hipocrisia, e as teorias do medo fazem o serviço completo, cegando mesmo aqueles que desejam ver.

Vivemos na chamada era da informação, do conhecimento. Mas parece que este conhecimento existente e disponível a todos, através da tecnologia, não tem sido suficiente para nos demostrar onde acertamos ou não, quais os melhores caminhos para prosseguirmos. Estas informações tem chegado a todos, mas nem sempre tem sido compreendida. Afinal é fundamental o transmissor, mas ele nada significa sem um bom receptor.

Volto ao início do texto: não se trata de direita ou esquerda, não se trata de conservadores ou progressistas, tampouco reacionários ou revolucionários. Estamos diante de uma luta entre forças extremistas que desejam, ambas, o atraso, o retorno ao passado, àquilo que já foi superado, à morte, à ignorância das trevas e à deformação. Entre estas forças radicais uma imensa maioria daqueles que desejam seguir em frente tendo a ciência como fanal, o respeito às diferenças, um planeta preservado e que produza, o compartilhamento justo da riqueza para eliminarmos as grandes desigualdades e o apoio incondicional à vida.

A cultura, a sabedoria, a educação, a espiritualidade, a interação com a natureza, a socialização, estão neste momento perdendo seu espaço, na formação de seres críticos e autônomos. Um grande contingente de pessoas que rejeitam os extremos, estão à deriva, flutuando envolvidos por uma enorme quantidade de informação e desinformação, sem contudo conseguir colocar os pés no chão. Sabem o que não querem, mas definitivamente não sabem o que querem.

No Brasil essa realidade se amplia. Ainda temos uma maioria que está sem voz. Mas é uma maioria apertada. Somos hoje um país mais conservador e de uma fragilidade crítica assustadora. Pesquisa recente mostra com que facilidade o populismo da extrema direita ocupou a mente e o coração dos brasileiros. E como estas pessoas tendem a acreditar em teorias da conspiração e hipóteses enlouquecidas que pretendem contradizer os campos mais básicos da ciência atual.

Horroriza ter de confrontar as teses da terra plana, da arma como remédio para a violência, da cura gay, da morte aos infiéis, mas por outro lado também é trágico perceber a defesa de ideias que pregam a eliminação dos humanos do planeta para que a natureza se restabeleça.

A impossibilidade de retornarmos para a Idade Média é inexorável, mas sempre podemos, por um espaço de tempo, trazer a Idade Média para mais perto de nós.

Meu conforto é acreditar que esses homens, habitantes das extremidades e seus ideais radicalizados, serão soterrados pela história, juntamente com suas ideias estúpidas.

3 comentários sobre “Um mundo pobre

  1. Gostei ,e uma apanhado geral , sem desvio ideológico ou partidário, mas a evolução ou não dá sociedade como um todo
    E uma resumo que lhe instrui como um todo
    Muito legal e salutar

    Curtir

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