Quando a loucura vence

Théodore Géricault – Portrait of a Kleptomaniac

Talvez a vitória da loucura seja a convulsão de um corpo que deseja a morte para atingir um novo sopro de vida, seja ela individual ou social. Uma ação como a do fogo – queimando seu próprio oxigênio – que purga, que transforma, derrete, mata para renascer. A neve que queima a planta, cobre a relva e, ao derreter, a faz renascer mais forte. Essa é uma introdução em que tento me convencer de que o descalabro que estamos vivendo no Brasil poderá representar uma reinvenção.

Mas em seguida tragicamente sou obrigado a lembrar que os ciclos brasileiros têm sistematicamente atolado em um solipsismo paralisante. Aqui o ufanismo e a hipocrisia se associam criando uma das mais trágicas prisões de mentes e corpos mantidos deliberadamente na ignorância, sob o manto da modernidade e do desenvolvimento. “Brasil o país do futuro”, “Brasil ame-o ou deixe-o”, “Deus é brasileiro”, “Brasil o melhor país do mundo para se viver”, “Brasil acima de tudo”, etc.

Neste castelo de horror frequentemente aparecem os heróis, os líderes, os iluminados em suas fantasias ou armaduras. Ungidos por poderes divinos todos eles são Moisés, levando seu povo através do deserto sem fim.

Quantas gerações brasileiras se tornaram vítimas de seca, de miséria, de fome, de analfabetismo, de tragédias geológicas, de irresponsabilidades, enfim das mais infames desculpas e justificativas esdrúxulas, sempre convenientemente próximas da mão.

A história, do Brasil e da humanidade, já deixou rastros e cadáveres suficientes para relembrarmos as recorrências, os ciclos e as artimanhas que desenvolvemos para chegar onde chegamos. Basta olhar sobre os ombros para percebermos os verões, outonos, invernos e primaveras das diversas sociedades nas quais nos movimentamos, crescemos e morremos. As pessoas, da mesma forma, criam desde que nascem suas fantasias, personagens, cercam-se de idiossincrasias que as definem.

Não raro estas personagens são criadas como defesa ao meio circundante. Uma espécie de escudo ou armadura contra agressões, violência, incompreensões. Em outros casos o personagem é criado para atingir algum objetivo, as vezes claro outras vezes inconfessável. Em algumas situações a armadura criada visa superar as fraquezas naturais, o despreparo ou ainda a ignorância.

Tantos homens e mulheres vem à memória, tragados que foram pelos próprios personagens que criaram. Porque não tenho dúvida de que a loucura do personagem acaba sempre por dominar completamente o seu criador. Depois que o personagem esta criado, estabelecido no seu meio, ganhou corpo e importância, não há mais caminho de retorno.

É como dar vida a um novo ser. São bigodes que não podem mais ser retirado; roupas militares que se repetem todos os dias, como se a própria pele fosse; charutos colados eternamente na boca; senho franzido que não relaxa mesmo durante o sono; mão que indefinidamente se transforma em arma. Verdadeiros bonecos, títeres prontos para a foto oficial e para a opinião pública.

Aqui em nossa terra, onde a loucura grassa, já seguimos coronel chamado de pai dos pobres, já fomos guiados por militares fardados sobre seus cavalos, já elegemos herói que pilotava jato e caçava marajás, apenas para citar alguns mais recentes.

Personagens de uma história triste e pobre onde a lógica permaneceu a mesma, exaltando a fantasia de uma nação inexistente e atrasada. Líderes bradando slogans vazios de realidade. Defendendo preceitos inverossímeis. Varrendo para baixo do tapete, convenientemente, as políticas públicas que poderiam colocar o Brasil em outro patamar diante do mundo e principalmente diante do nosso próprio espelho.

Infelizmente agiram ao contrário, preferiram todos seguir seu embuste, representando um papel ridículo e pequeno. Viveremos mais quatro anos nesta agonia onde a loucura do personagem já tomou conta do ator, que caminha sem volta para o seu destino infame e desqualificado, arrastando toda a nação consigo.

2 comentários sobre “Quando a loucura vence

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