O papai, a escola e a vergonha

Egon Schiele – Three Girls

Nos dias atuais, mesmo com todos os avanços da legislação, com o estabelecimento dos padrões civilizatórios de comportamento, com a ética, a moral e os bons costumes sendo colocados nos altares hegemônicos das teorias, os homens contemporâneos, ainda assim, deveriam se envergonhar da idiossincrasia que persiste em emergir máscula e violenta.

O homem, o macho, o pai, a força física, nesta condição, apenas provocam dor e violência. O livro de Steven Pinker, “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, trazem todos os dados e gráficos, em suas quase mil páginas, demonstrando que a maioria das formas de violência que sofremos são basicamente provocadas por homens.

O machismo não deveria mais ser compreendido como “comportamento aceitável ou desculpável” mas ser banido para o campo dos vícios, das doenças, das deformações resistentes do caráter. Ser tratado, como caso de saúde pública, por psicanalistas. A ideia e a prática do machismo redunda em atos da mais brutal realidade. A matéria publicada pelo G1 sobre a sequência de estupros sofridos por uma menina, durante mais de nove anos, pelo pai e avô, revelados através de cartas escritas pela vítima, é mais um caso destes que revolta e faz cada fibra do nosso corpo vibrar de indignação diante da tragédia criminosa e deliberadamente executada por animais machos (não tenho outra forma de expressão).

Por que a vítima se revelou através de cartas? Porque a menina simplesmente não conseguiu falar sobre o assunto; porque tinha sentimento de culpa; porque mesmo com toda a brutalidade ainda não conseguia odiar o pai e o avô. As cartas foram uma estratégia dos profissionais da escola que possibilitaram, a menina hoje com doze anos, colocar para fora o vômito dessa história nauseante, ainda que sua cabecinha inocente não conseguisse compreender bem porque aquilo teria acontecido com ela. A história se repete Brasil afora todos os dias atingindo a alma e o corpo de milhares de crianças indefesas em suas próprias casas. Os números são assustadores, milhares, e estão aí em gráficos para as autoridades competentes e a sociedade sentirem todas a vergonha diante desta triste realidade.

E devemos escutar em silêncio as autoridades dizerem, em um misto de ignorância e hipocrisia, que o sexo na infância deve ser discutido apenas em casa por “papai e mamãe”?

Estas decisões atrasadas, obscurantistas e retrógradas arrastam a sociedade para trás, para um passado já superado, para o fundo de um poço do qual já havíamos saído. Isto é o que deseja o governo brasileiro com suas teorias trazidas da idade média para o nosso tempo. Neste passado para onde querem nos lançar, aí sim, o sexo começava em casa com serviçais, com papais, titios, avôs, etc. Não era raro meninas engravidarem dos seus parentes próximos e depois entregarem suas crianças em conventos (isto no caso de famílias com posses), nos casos de famílias pobres a criança era criada assim mesmo sem grandes explicações.

Não discutir sexo na escola, por profissionais, facilita que ele seja praticado como crime na família. São milhares de casos de abusos em crianças dentro de casa e normalmente detectados na escola, que percebe a alteração no comportamento das crianças.

Neste caso, senhores que hoje controlam o governo, o papai e a mamãe são os criminosos e a escola pode salvar.

A escola foi e sempre será um espaço infinito, amplo, de reunião dos contrários, de respeito às diferenças, do acolhimento aos fragilizados, da oportunidade para todos através do compartilhamento do conhecimento. Mas não há dúvida que este espaço é feito por pessoas e não por anjos, portanto a escola pode ser mais democrática ou mais rígida, pode oferecer mais ou menos liberdade, mais ou menos qualidade. Por isso mesmo em uma escola tudo deve ser discutido: a direita e a esquerda, todas as religiões, todas as tendências, a sexualidade, todos os espectros culturais, as línguas e os povos. Enfim tudo aquilo que possa alargar nossa visão e compreensão do mundo de pais, alunos e professores.

Jamais podemos restringir ou diminuir a realidade escolar, sob pena de formarmos mulheres e homens menores e, consequentemente, uma sociedade obtusa. Que me parece o atual plano em curso.

Crianças que não tem conhecimento e domínio, enfim noção de pertencimento, sobre o seu próprio corpo, serão sempre vítimas, apáticas, passivas, subjugadas. E estas crianças que não dominarem seu corpo jamais dominarão o mundo que as cerca.

E nós adultos ao permitirmos o crescimento de crianças dominadas pelo medo, pelas sombras da vergonha, do sentimento de culpa, estaremos contribuindo com a construção de uma sociedade torpe, deformada, onde a mentira e a hipocrisia se associam para que o crime posse ser, de forma conveniente, escondido vergonhosamente debaixo do tapete.

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