O nada

São muitas as frases, citações e exemplos históricos que nos indicam a importância fundamental da cultura na solidez de qualquer sociedade, seja ela uma vila, grupo étnico ou nação.

Mas o que isso significa realmente? Vamos tomar o exemplo francês: “liberdade, igualdade e fraternidade” este é um conceito que definitivamente não surgiu do “nada”. Foram lutas, sangue, injustiças, superação de desafios imensos até o conceitual vestir o material. As ideias do Iluminismo se enraizaram no tecido social francês de uma tal forma que qualquer tentativa de destruí-lo é imediatamente rejeitada. Trabalho consolidado por muitos pensadores, escritores, homens públicos, artistas, trabalhadores das cidades e do campo estabelecendo uma ética e visão de mundo muito particular. Estas crenças comungadas são como fios invisíveis que unem uma nação. Todos respiram os mesmos ares. Se um é perturbado, nas suas crenças, todos os outros também o são.

Muitas nações se reergueram, após grandes tragédias, sobre os pilares desta cultura enraizada em seu tecido social. Após a II Grande Guerra os franceses se reergueram a partir da sua crença na liberdade; os ingleses na sua capacidade de resistência histórica; os japoneses através do seu rigor e disciplina, ambos cultivados em vários exercícios tradicionais, dos quais cito a cerimonia do chá, os alemães também se soergueram de uma derrota total apoiados em sua cultura refinada embalada na música clássica e na filosofia.

Na verdade tudo o que sobrevive além de uma civilização é sua cultura que abarca a religião, a ciência, a arte e a filosofia. Mesmo grandes civilizações desaparecidas como as Sul-americanas, Asiáticas ou, as ocidentais mais conhecidas como, a Grega ou Romana deixaram para a posteridade a imagem da sua cultura solidamente preservada como se gravada em pedra. Essa é a nossa memória.

Olhando para trás o que resta do passado é a cultura. No mais é o “nada”.

Olhando para a frente, para o futuro, a cultura de um povo garante a resistência àquilo que pode ser predador, destruidor. No mais um povo sem essa resistência cultural fica a deriva, também em um grande “nada”.

O “Grande Nada” confunde-se em alguns momentos com o deslumbramento diante do brilho externo do poder alheio. Noutros casos o “nada” é a própria tragédia da miopia diante da vida e suas armadilhas fatais. Já em outras situações o “Grande Nada”, por ignorar, se abandona em um isolamento obscurantista, negando o avanço dos outros e atribuindo a si uma relação direta com a divindade. Enfim, o “nada” nos coloca na condição de náufragos, balançando ao sabor das ondas, sem condições de segurar o leme, içar uma vela, ou ainda ligar um motor que nos conduza ao nosso próprio destino. O “nada” conduz rebanhos autômatos, sempre famintos de novidades, sempre vidrados pelo brilho, seu vento é o perfume da sedução hipnótica.

É perturbador olhar para o Brasil e enxergar apenas esse “Grande Nada”. Vejo dia após dia nossa cultura já frágil se diluir ainda mais em um turbilhão de futilidades sem o menor sentido. Não encontro nenhum movimento que abra uma perspectiva para as gerações que estão chegando. A angústia é não perceber, em nenhuma camada da sociedade, reação ao “nada” que baixa sobre o país como um grande nevoeiro. A sociedade brasileira enxerga cada dia menos. Estamos desfocados daquilo que verdadeiramente precisaríamos fazer.

A formação das nossas crianças, tanto nas escolas quanto no seio das famílias, é lamentável. A preocupação das instituições com a produção cultural inexiste. Não estimulamos a publicação dos jovens escritores, a produção dos jovens artistas. O investimento em pesquisas nas universidades ou mesmo no campo privado é ridículo. Discutimos apenas o irrelevante. Tudo deve mudar para que tudo fique como está, me parece que esta frase de Giuseppe di Lampedusa foi feita para o Brasil.

Encarar esse “Grande Nada” que é o Brasil se tornou irrespirável. Estamos em um imenso vácuo à deriva e precisamos urgentemente retomar o controle do nosso destino.

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