Tolstói: Conservador ou renovador?

Liev Tolstói escritor Russo

O Brasil travaria uma discussão muito rica e importante – infelizmente transformou-se em conversa de boteco, rasteira e superficial – em sua disposição de confrontar conceitos e pautas conservadoras e renovadoras. Este cotejo das experiências já vividas, de traumas políticos, econômicos, sociais, recentes ou antigos, nos faria avançar, tenho certeza disso. Porque podemos afirmar que sempre aprendemos muito com a observação atenta dos nossos próprios erros e acertos.

Tenho ouvido que o Brasil é um país conservador….será? Tenho muitas dúvidas sobre isso. Me parece que a grande maioria da população brasileira até pode ter alguns posicionamentos conservadores, mas não tenho dúvida que, estas mesmas pessoas, tem mais envolvimento e participação em assuntos que indicam seu espírito renovador.

Utilizo deliberadamente como antônimo de conservador a palavra renovador. Várias outras palavras poderiam ser colocadas como antagônicas ao conservadorismo (inovador, avançado, liberal, progressista, revolucionário, vanguardista, atual, contemporâneo, moderno, etc.), porém muitas destas palavras trazem “cargas conceituais” que não permitem uma visão adequada do que é ter uma postura “não conservadora”.

Apenas para citar dois exemplos: historicamente liberais e progressistas são termos muito contaminados por posicionamentos que sempre defenderam movimentos autoritários, em suas formas burguesas e oligárquicas, demonstrando hostilidade a inovações nos códigos morais e nas instituições. Valorizam e priorizam uma espécie de meritocracia individualista (onde a exceção é exaltada, como se pudesse ser a regra) em detrimento da criação de oportunidades sociais e coletivas que buscam maior igualdade para a coletividade.

Infelizmente, no Brasil, caímos na armadilha maniqueísta, da solução obtusa e do discurso raso, que divide o mundo em dois. Sombras e Luzes. O conservador representa a direita política, a família, a religião, a tradição, a pátria, a força da autoridade imposta pela força das armas ou militar. O renovador representa a esquerda política, o social, a ciência, a quebra de modelos, a força da autoridade democrática da maioria.

Este tipo de divisão imposta ao país não nos levará a lugar algum. A maioria da população brasileira não se encaixa exclusivamente em nenhum dos dois grupos descritos acima.

Os humanos têm muito mais contradições e áreas de sombra e luz, seja em sua consciência, ego ou id, do que pode supor qualquer cartilha de definição sociológica, religiosa, partidária, ou mesmo militar. Estas sutilezas do comportamento estão expostas em milhares de casos relatados (por motivos óbvios) sobre as personalidades de destaque nas mais diversas áreas do conhecimento humano. São homens e mulheres que com sua genialidade produzem obras que estão muito a frente do seu tempo, fazem a sociedade avançar, mas simultaneamente têm comportamentos em sua vida privada que revelam todo o seu conservadorismo. Portanto são renovadores da sociedade e se colocam na vanguarda, mas simultaneamente se comportam como conservadores diante dela.

Vamos citar aqui como exemplo apenas um nome, dentre tantos que poderiam ser citados, de uma personalidade que marcou fortemente a sociedade contemporânea com sua literatura, ideias e sua própria vida: Leon Tolstói. Considerado um dos mais importantes escritores de todos os tempos. Seus livros como: Guerra e Paz e Anna Karenina influenciaram ideias, comportamentos e muitas outras obras de várias gerações até os dias de hoje.

Tolstói era um anarquista e ao mesmo tempo pacifista. Passou a viver uma vida quase ascética, rejeitou sua herança e também os direitos autorais de suas obras. Se posicionou contra a propriedade privada e a propriedade de terras. Se manifestou também contra a instituição do casamento. Nasceu em uma família nobre, negou sua ascendência e terminou seus dias como um escritor camponês.

Se deslocarmos Tolstói para a realidade brasileira de hoje ele seria definido como um homem de esquerda e seria acusado de comunista e ateu.

Tolstói rejeitou também qualquer ideia de governo, dentro da melhor roupagem liberal, o escritor entendia o estado como um problema para o cidadão e que o pacifismo resolveria nossa convivência social.

Mas o que poderia ser mais surpreendente, para um brasileiro nos dias de hoje, é que esse mesmo Tolstói comunista tinha uma face religiosa bem radical. Sua opção pela pobreza foi resultado de uma profunda reflexão e imersão nos textos sagrados, principalmente o novo testamento. Tolstói escreveu o livro: “No que eu acredito” onde afirma suas crenças nos ensinamentos de Jesus Cristo, particularmente influenciado pelo Sermão da Montanha.

Sem esquecer que após sua morte alguns livros com o nome: “Bíblias de Tolstói” foram publicados compilando os textos sagrados nos quais Tolstói mais acreditava.

Quem foi Tolstói realmente, um conservador ou um renovador? É necessário respondermos a pergunta ou é mais importante nos debruçarmos sobre sua obra e retirarmos dela tudo o que pode nos oferecer de positivo?

Quanto ganharíamos, nós no Brasil, como sociedade se pudéssemos discutir amplamente as contradições, individuais e coletivas do nosso povo.

Todos temos fragmentos conservadores e desejos renovadores em nós mesmos. Nossos lapsos conservadores nos mantém apegados ao passado, ao status quo, às nossas ilusões de um mundo mais seguro ao nosso redor, nos aprisiona às tradições, aos rituais, às verdades estabelecidas pela ciência, religião ou filosofia.

Mas felizmente ao nosso redor também circula um desejo incontido de renovação, de ir além, o horizonte nos chama irresistivelmente, a superação dos limites é o que nos move. As leis precisam avançar, as nossas atitudes devem sempre ser revistas quando diante do outro.

Os negros já foram considerados, pela lei, objetos de compra e venda. As mulheres, por definição de lei, tinham donos, primeiro seus pais e depois seus maridos. Era previsto em lei que um homem poderia matar o outro, em duelo, caso a honra houvesse sido atingida. Um homem traído poderia matar sua mulher e seria protegido pela mesma lei.

O conservadorismo nos ata ao passado e endurece nosso ser. O conservador tem pesadelos com as mortes do passado e seus ossos. A atitude do renovador permite avanços, nos liberta, ao menos das nossas próprias culpas. Aquele que renova sonha com dias melhores nas asas do desejo.

5 comentários sobre “Tolstói: Conservador ou renovador?

  1. ÀS VEZES chego a pensar que todos os escritores russos foram estrelas, Gogol, Tchecov, Andreiev, Tolstói e Dostoyesvsk e considero como “russos” Bernardo Elis e Guimarães Rosa. Este disse De um conto daquele, chamado ONTEM, COMO HOJE, COMO AMANHÃ, COMO SEMPRE : “Ninguém, nunca, em tempo algum, em país algum, em idioma nenhum, escreveu coisa melhor” . Prefiro pensar que o Tolstói é um SANTO.

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  2. Muito bem colocado o texto. Vejo o posicionamento mais acirrado dos conservadores como um pedido desesperado para que os cultos, que defendem a mesmas idéias que eles, não se escondam (já que hoje são rotulados negativamente no meio intelectual), mas que se apresentem, como também apresentem seus argumentos, com a certeza que tem suporte e espaço legítimos na sociedade, além da coerência.
    E que são tão competentes quanto aqueles a quem se opõem.

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