Educação e o medo da história

Jan Steen_Fotor

Jan Steen 1626 – 1679. Pintor Holandês de Leiden – Village School

A história se faz com perdedores e vencedores, mas essa é a história contada, que se trata na verdade de ficção. Na grande maioria dos casos a história, que geralmente é contada pelos vencedores, é extremamente ficcional e coloca os vilões como heróis e vice-versa; distorce fatos para construir uma ideia ou ideal.

Muitos dos grandes homens, com suas vidas romanceadas, conquistadores e visionários, estavam mais para carniceiros, tiranos, vaidosos, alguns até limitados. Pesquisas, números, resgates dos fatos, objetos, correspondências, fragmentos e evidências trazem à luz versões mais aproximadas do que fora a realidade.

Napoleão está em que lugar entre um herói francês e um tirano frio? Stalin está mais para revolucionário ou assassino em massa? Einstein se aproxima mais de um pacifista ou de um destruidor de milhões de vidas japonesas? A igreja católica salvou mais almas através dos seus ensinamentos ou mutilou mais corpos através da inquisição? Poderíamos fazer milhões destas perguntas sobre quaisquer áreas da ciência, da religião, das artes, da filosofia.

Nossa vida em sociedade, além da sobrevivência básica – alimentação e procriação – tem mesmo se dedicado exaustivamente a analisar, rever, estudar e reestudar a nossa própria história como forma de realinharmos os comportamentos em busca daquilo que definimos como o nosso “Santo Graal”: A felicidade.

Todo este trabalho arqueológico se dá por várias vias. A arte da pintura, do teatro, do cinema, nos deixam rastros indeléveis e precisos do caráter de uma época e seus principais personagens. A literatura, as pesquisas acadêmicas, o jornalismo investigativo, a filosofia, a sociologia, enfim todos os segmentos intelectuais contribuem para trazer a história “ficcional” para mais perto da história “real”.

Existem excessos e erros? É claro. Mas nunca encerrar a discussão através de “decreto”, pela força, seja religiosa, governamental, ou mesmo militar permitiu uma geração avançar ou crescer, em qualquer perspectiva que seja. Afinal estamos nos conhecendo a nós mesmos, nosso comportamento em relação à atividade sexual, ao conhecimento, à nossa espiritualidade, à nossa materialidade, ao respeito que aprendemos a ter uns com os outros, à convivência pacífica entre os diferentes. Afinal de onde viemos e para onde vamos?

Todos estes questionamentos estimulam nosso senso crítico, nos fazem refletir sobre o que nos cerca, ao ambiente que recebe a nossa influencia e nos influencia diretamente. Já imaginamos que a terra era plana, que o sol girava em nosso entorno, já estivemos convencidos um dia de que um navio não flutuaria, que um avião mais pesado do que o ar não conseguiria voar. Achamos uma quimera fazer um trem, impulsionado por um motor, se deslocar sobre trilhos, porque ainda não conhecíamos o atrito.

E onde a grande maioria destes avanços aconteceram? Onde as mentes foram estimuladas para ir além? Não nos permitindo atolar na ignorância e nos preconceitos? Foram as escolas, os espaços de inquietude da alma e revolução da matéria.  Mas estes espaços escolares, de conhecimento, não foram até aqui apenas repassadores de números frios, letras e regras gramaticais estéreis. Não foram apenas espaços confirmadores da história dos vencedores, ou dos dogmas da religião oficial. Não, as boas escolas e bons professores sempre nos levaram a questionar, a criticar aquilo que estava consolidado, caso contrário a mecânica de Newton não seria substituída pela mecânica quântica de  Heisenberg. A biologia de Mendel não teria resultado no conhecimento da genética e do DNA. O sinal do telégrafo não conheceria a mensagem eletrônica dos nossos telefones.

Lentamente, através do exercício crítico, rompemos barreiras dogmáticas, desafiamos as tradições, descobrimos a força da matéria e a força do pensamento, compreendemos melhor nosso passado, presente e projetamos o futuro. Já ao contrário nos períodos onde a mão do conservadorismo se estabeleceu, reinaram as trevas o obscurantismo e a humanidade caminhou para trás ou permaneceu estagnada.

O triste final deste texto mostra que a obtusidade dos conservadores, mesmo daqueles que utilizam seus celulares para passar mensagens por vias invisíveis, desejam escolas áridas para seus filhos como forma de controle social. Escola sem partido, seja lá o que isso significa realmente, é um retorno ao que temos de mais obscuro nos padrões já implantados em nossa sociedade. É decretar que nossos filhos, sem espírito crítico, serão reprodutores de ideias ultrapassadas, de objetos imóveis, de espírito apagado.

A história das sociedades, homens e movimentos conservadores não é muito favorável, tampouco exemplar. Esse é o medo que os conservadores têm das escolas libertadoras de corpos e mentes? É medo da sua própria história?

 

3 comentários sobre “Educação e o medo da história

  1. Republicou isso em ofe comentado:

    O resultado deste texto me surpreendeu nas redes….um grande numero de apoio e compartilhamento da ideia….me parece que os professores e pessoas ligadas à educação estão mobilizadas contra essa tendência de controle e manipulação do ato de educar.

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