Brasil Sectário

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Paulo Freire

Retorno ao Blog OF depois de três meses de afastamento.

Primeiro porque fui muito exigido em meus trabalhos de comunicação e publicidade neste período. Depois, porque redes sociais e quase todas as áreas da WEB, de maneira geral, transformaram-se em sítios contaminados, tóxicos e pestilentos em função das eleições brasileiras. A insanidade tomou conta de candidatos, campanhas, partidos e eleitores.

O aprofundamento desta triste realidade após o segundo turno das eleições presidenciais expõe toda a manipulação, distorção de fatos, jogos de interesses públicos, privados e inconfessáveis.

Repito, uma triste realidade que envolve uma sociedade sem capacidade crítica, sem respeito democrático diante do outro, daqueles que são diferentes. Uma sociedade sem espírito dialético suficiente para sustentar uma discussão, que vá além da extremidade direita ou esquerda. Uma realidade que não supera as acusações rasas feitas com slogans, números ou palavras de ordem.

Retorno, só agora a este espaço, alguns dias depois do final do segundo turno, porque minha mulher resgatou, para nossas conversas no café da manhã, um texto, escrito em 1968, que veste, como uma luva, esta realidade absurda instalada no país. O texto está no livro Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, e  trata-se apenas da sua introdução.

Paulo Freire um nome que dispensa apresentações ou créditos, um homem com ideias e visão que escapa e vai muito além do seu próprio tempo. Uma compreensão ampla, abrangente e atemporal do universo humano, além de conhecer o Brasil como poucos, o que fica demonstrado nas entrelinhas do seu texto.

Sua abordagem sobre a opressão, as liberdades e suas contingências, as forças de dominação, a caracterização do que é a direita reacionária e como a esquerda pode se transformar em reacionária também, ilumina completamente aquilo que, no meu entender, tornou-se o Brasil neste apequenado momento histórico.

Esta introdução da obra ilustra aquilo que afirmo, além de deixar indicado o caminho que as forças democráticas do país devem tomar para não permitirem mais a sua anulação ou mimetização na própria direita conservadora, seja vestida com uniformes militares, travestida como liberal ou ainda disfarçada em túnicas eclesiásticas.

Sectário, esse é o retrato mais fiel do Brasil, um país dividido. Mas não apenas em dois grupos como cita a nossa superficial e oportunista imprensa. Uma sectarização profunda e construída deliberadamente através da implantação do que poderíamos chamar de ignorância orgânica, celular, e com o passar dos anos hereditária. Cegueira espiritual, científica e ética, o que torna uma população, em sua grande maioria, sem o mínimo de respeito pelo semelhante, ambiente e também pelas coisas manufaturadas que nos cercam. Estamos nos tornando quase sectários individuais, se isso é possível, donos de uma auto-verdade petrificada, plasmada em um cotidiano duro e trágico, sobretudo nos grandes centros urbanos do país.

Aqui vai um trecho da introdução à Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

“…É que a sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre. A radicalização, pelo contrário, é sempre criadora, pela criticidade que a alimenta. Enquanto a sectarização é mítica, por isto alienante, a radicalização é critica, por isto libertadora. Libertadora porque, implicando no enraizamento que os homens fazem na opção que fizeram, os engaja cada vez mais no esforço de transformação da realidade concreta, objetiva.

A sectarização, porque mítica e irracional, transforma a realidade numa falsa realidade, que, assim, não pode ser mudada.

Parta de quem parta, a sectarização é um obstáculo à emancipação dos homens. Daí que seja doloroso observar que nem sempre o sectarismo de direita provoque o seu contrário, isto é, a radicalização do revolucionário.

Não são raros os revolucionários que se tornam reacionários pela sectarização em que se deixam cair, ao responder à sectarização direitista…”

Uma leitura clara como água do que ocorreu com as esquerdas, centro-esquerdas e até mesmo o centro moderado no Brasil, face ao discurso de rancor e ódio que vimos crescer a partir de 2013, sem esboçar reação adequada. E cito ainda mais uma vez as palavras de Freire.

“…Não queremos, porém, com isto dizer – e o deixamos claro no ensaio anterior – que o radical se torne dócil objeto da dominação.

Precisamente porque inscrito, como radical, num processo de libertação, não pode ficar passivo diante da violência do dominador…”

O que houve no Brasil foi apenas agressão mútua e nada mais. As forças ditas democráticas, articuladas e libertárias foram puxadas (e se deixaram levar) para o pântano do obscurantismo, para uma discussão nas trevas, nas sombras, sem conseguir revelar à sociedade brasileira, trazendo à luz, o engodo, a dissimulação e até mesmo a contradição do falso discurso de salvação nacional. Este foi o impasse imobilizador da esquerda, revelado também pelo texto de Paulo Freire.

“…Enquanto o sectário de direita, fechando-se em “sua” verdade, não faz mais do que o que lhe é próprio, o homem de esquerda, que se sectariza e também se encerra, é a negação de si mesmo.

Um, na posição que lhe é própria; o outro, na que o nega, ambos girando em torno de “sua” verdade, sentem-se abalados na sua segurança, se alguém a discute. Dai que lhes seja necessário considerar como mentira tudo o que não seja a sua verdade. “Sofrem ambos da falta de dúvida…”

Aqui deixo o link com o texto introdutório completo, são apenas 4 páginas que valem muito a leitura. E para quem quiser aproveitar o livro na íntegra aí vai o link da Pedagogia do Oprimido.

Um comentário sobre “Brasil Sectário

  1. Não é mas possivel imaginar .Desligamos das experiências analógicas.
    Estamos mentalmente no mundo das ondas ,sem fim e começo.Sem origem
    Basta soprar para mudar de lugar.

    Incompreensão…

    Curtido por 1 pessoa

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